Professor pesquisador Isaias Sales Ibã
Rio Cipó, novembro de 2008 (a música é do companheiro Marcelo Piedrafita)
Copalitarismo
(...)
Os tribunais especiais foram estabelecidos na África do Sul por exigência da Fifa. Estão decorados para a Copa, mas não se deixe enganar pelo ar de festa. Por imposição da Fifa, os julgamentos tem de ser em curtíssimo prazo e as penas, aplicadas imediatamente.
(...)
As penas são severas: um homem que furtou o celular de um turista estrangeiro foi condenado a cinco anos de cadeia. Dois assaltantes que roubaram o equipamento de um fotógrafo trabalhando na Copa pegaram 15 anos.
(...)
Os mesmos tribunais ajudaram a deportar rapidamente torcedores argentinos sob a suspeita, levantada pela polícia, de que poderiam participar de arruaças.
Justiça rápida resolve? "Resolve", diz a juíza, já em seu gabinete. Aqui normalmente leva muito tempo até um caso ser resolvido. No caso da Copa, esquadrões especiais de investigação reúnem provas, evidências e municiam a acusação em prazo recorde, baseados em dispositivos legais que a Fifa mandou acrescentar às leis do país.
Um deles permitiu que as autoridades sul-africanas prendessem duas holandesas que usavam minissaias nas cores de uma cervejaria européia concorrente da cervejaria que é patrocinadora da Fifa."
(no link: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-tribunais-de-excecao-da-fifa?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter)
Reforma na Lei de Direitos Autorais
“Eu acho que o processo demorou bastante, bem mais do que o previsto. Poderia ter sido concluído há um ano e meio”, critica Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai). O grupo participa da Rede pela Reforma da Lei de Direito Autoral, que reúne 20 organizações (como CTS-FGV, UNE e Idec) e pressiona o MinC a liberar o texto desde o ano passado.
Distração. O temor é que o debate perca força por causa da Copa do Mundo e das eleições. Além da pressão pela aprovação, o MinC também enfrentou resistência das entidades privadas contrárias à mudança. A Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus) diz, por exemplo, que a lei 9.610 é atual e precisa só de retoques.
A principal diferença é que a nova legislação prevê um espaço para uso amigável e também mais flexibilidade para os autores discutirem prazos e condições de cessão de direitos, além da criação de um Instituto Nacional de Direito Autoral responsável por regular a atuação das entidades privadas. Esse é o ponto mais criticado pelas entidades de arrecadação, que acusam o MinC de estatização. O Ministério prefere definir as mudanças como a “criação da figura de um ‘Estado indutor’”.
Por ser tão restritiva, a legislação anterior, a lei 9.610, de 1998, foi considerada pela ONG Consumers International como a sétima pior do mundo em termos de acesso à educação. Ao pé da letra, a atual LDA proíbe fotocopiar livros para fins educativos, copiar obras para fim de conservação e usar pequenos trechos para remix. A nova legislação deve criar mecanismos para legalizar esses três exemplos.
“A ideia é ter um mecanismo para os autores ficarem mais independentes”, diz Samuel Barrichello, coordenador-geral de regulação em direitos autorais do MinC. Além disso, “a proposta é que 50% do valor da obra vá para o autor”. O Instituto de Direito Autoral não determinará valores, mas definirá regras básicas de atuação das entidades de arrecadação. “É meio obrigatório existir gestão coletiva. Mas esses órgãos precisarão ser registrados no ministério.”
Acesso. A legislação não só deve proteger e garantir que o autor receba por sua criação mas também garantir que o público tenha acesso aos bens culturais – e é esse o ponto criticado pela Consumers International. O novo projeto de lei deverá prever uma série de exceções e limitações para que, por exemplo, seja permitido digitalizar um filme cujo diretor não seja mais localizável. E também regulamentará o remix, a possibilidade de uso de pequenos trechos da obra. “A ideia é criar flexibilidade para que se possa usar uma obra sem infringir os direitos autorais”, diz Barrichello.
Para Para Ortellado, a reforma da lei traz avanços importantes, mas poderia trazer mudanças mais ousadas – como a diminuição dos prazos de proteção (que continua a ser de 70 anos) e a regulação do compartilhamento na internet. “Poderíamos aproveitar essa janela de oportunidade”, sugere. “É preciso falar mais em trazer remuneração pela música na internet”, sugere o produtor Pena Schmidt, que, junto de Ortellado, também assina o manifesto pela mudança da LDA. “Não há porque criminalizar a fruição da nossa cultura. É preciso descobrir como cobrar e remunerar os direitos adequadamente, sem tratar os ouvintes e promotores como inimigos.”"
(no Estado de São Paulo, 13 de junho de 2010. Link para baixar o livro "direito autoral em debate")
O carrasco da floresta, por José Ribamar Bessa Freire
- "O deputado Aldo Rebelo me agrediu, bateu no meu corpo com um porrete, rasgou minha camisa, tentou me eliminar a mando da senadora Kátia Abreu! Há testemunhas. Estou registrando a queixa. Ele vai pagar caro por essa agressão, vai perder a eleição".Quem fez essa denúncia grave, em entrevista exclusiva à coluna Taquiprati do Diário do Amazonas, foi o jurista Curupira Ramos, sentado sobre um jabuti que lhe servia de banco, em sua casa no meio do mato, com as pernas cruzadas, os pés virados para trás, o cabelo vermelho, os dentes verdes, as orelhas enormes e o corpo tão peludo quanto o do seu sobrinho Tony Ramos (a genética é impressionante, não falha nunca!).
Taquiprati (TQPT) - Doutor Curupira, o senhor existe de verdade?
Curupira (C) – Lógico! Se eu não existisse, não poderia ser agredido. Essa pergunta é impertinente, você deve fazê-la ao Aldo Rebelo. Aliás, minha existência é reconhecida pelo projeto de lei federal nº 2.762 que cria o Dia do Saci – o único que Aldo apresentou em 2003, como líder do governo. Ora, se até o meu primo, que tem uma perna só, existe...
TQPT – Desculpe, Excelência, é que dizem que vós sois uma invenção do homem.
C – (arregalando os olhos negros) E daí? O Código Penal também é uma invenção do homem para organizar a sociedade! Só porque foi inventado não têm vida? Claro que tem! Aliás, existe justamente porque foi criado. As pessoas acreditam no Código Penal e pautam seu comportamento em função dele. Tudo aquilo que o ser humano cria, passa a existir. A alegria e a tristeza também não têm forma física, mas existem porque a gente pensa nelas. Os homens pensam em mim. Sou pensado, logo existo.
TQPT – O que é que Vossa Excelência faz, afinal, na vida?
C – Sou legislador e, ao mesmo tempo, guardião da mata. Crio leis de proteção ao meio ambiente. Defendo a vida e a floresta. Protejo as árvores, os animais, os rios da ação predatória e burra. O fundamento filosófico de nossa legislação é que a natureza existe para todos nós, devemos retirar dela exclusivamente aquilo que é necessário para nossa sobrevivência. Devemos repor o que tiramos. Se não for assim, a espécie humana desaparece. Por isso, criei um código que, como a Constituição dos EUA, não é escrito, são leis que fazem parte do direito consuetudinário. Castigo e puno os predadores que cometem crime ambiental.
TQPT – Punir como? O Meritíssimo tem poder de polícia? Pode exemplificar?
C – Perfeitamente! Minhas leis são codificadas em narrativas. O código escrito tem artigos e parágrafos. O código oral tem histórias e exemplos. Quem entendeu isso muito bem foi Couto de Magalhães, um advogado mineiro. Quando ele assumiu a presidência do Pará, em 1865, compilou a legislação oral, recolhendo centenas de histórias na língua nheengatu, contadas por índios e cabocos. Numa delas, um caçador índio mata uma veada recém-parida. Quando chega perto do corpo inerte, descobre que é o cadáver de sua própria mãe. Esse encantamento foi obra de Anhanga. Essa é a pena para quem não respeita o período de procriação e amamentação dos animais: mata a própria mãe. Os povos da floresta acreditam nisso como os povos urbanos crêem no Código Penal. E é porque acreditam que preservaram a diversidade da vida.
TQPT – Mas o deputado Aldo Rebelo não sabia disso tudo, quando nessa quarta-feira, 9 de junho, na Comissão Especial da Câmara, terminou a leitura do seu parecer para mudar o Código Florestal Brasileiro?
C – Não quero ofender, mas aqui pra nós, muito em off, o Aldo é meio obtuso, bronco, parece que comeu coquinho de tucumã. Seu parecer de 270 páginas demonstra profunda ignorância sobre a história e a as culturas amazônicas. Afirma que “índios e caboclos, depois de lutar contra o meio inóspito, ainda vivem como viviam seus antepassados há centenas ou milhares de anos, dominados pelas forças da natureza, perambulando nus ou seminus, abrigados em choças insalubres”... (pg.21) Quá-qua-ra-qua-quá! Nenhum pesquisador no mundo assina embaixo de tal bobagem.
TQPT – Doutor Curupira, o meritíssimo já encontrou com o Aldo lá na floresta? Porque se ele fala tanto, é porque deve ter andado por lá...
C - O Aldo é um urbanóide, nunca colocou o pé na floresta. Por isso, acha que a mata é hostil. É hostil lá pra ele e pras negas dele, não para os povos que fizeram da floresta sua morada. Aldo fala em ‘choças insalubres’, mas o arquiteto Severiano Porto elogia a construção de malocas, confessa que aprendeu arquitetura com os índios. Aldo desconsidera mudanças e revoluções ocorridas nas sociedades amazônicas, registradas pelos arqueólogos. Ignora a arte, a música, a literatura, os conhecimentos na área de botânica, zoologia, astronomia, medicina, produzidos pelos índios. Nem suspeita que os índios criaram um código florestal oral. Ele afirma que “a conquista da Amazônia se deu com a expedição de Pedro Teixeira (1637-1639)”, como se a história começasse com os portugueses. Ignora que a Amazônia foi ‘conquistada’ pelos índios, que 5.000 a.C já desenvolviam agricultura sofisticada, com a domesticação da mandioca e de outras plantas. Aldo vê o saci e o curupira como 'folclore', não como expressão de culturas vivas e refinadas.
TQPT – Embora desconheça a floresta, Aldo diz que leu dezenas de livros sobre o tema...
C – Conversa fiada! Não leu, meu filho! O Aldo não lê nem o programa do PCdoB! Certifique-se você mesmo lendo o relatório que ele aprontou. Aprontou mesmo em todos os sentidos. A proposta do Aldo ignora os estudos feitos pelas universidades e centros de pesquisa. E ainda por cima se assessora mal. Em vez de chamar quem manja do assunto, foi procurar uma advogada, a Samanta Piñeda, que é consultora jurídica da bancada ruralista. Pagou R$ 10 mil com dinheiro nosso pra ela escrever aquela lengalenga enfadonha.
TQPT – Não entendo. O que é que o deputado ganha com isso?
C – Ganha a simpatia e o apoio dos ruralistas, do agronegócio. De acordo com a página na internet da ONG Transparência, a campanha de Aldo para as eleições de 2006 recebeu R$ 300 mil da Caemi-Mineração e Metalúrgica, R$ 50 mil da Bolsa de Mercadorias e Futuros, R$ 50 mil da Votorantim Celulose e Papel e por ai vai.
TQPT – Em que consiste, afinal, o projeto do deputado?
C – O projeto desmonta toda a legislação que protege a floresta: suspende multas de crimes ambientais, anistia desmatadores, reduz as áreas de preservação permanente (APPs) permitindo a realização de atividades econômicas dentro delas, dispensa a reserva legal em propriedades menores, incentiva a exploração de várzeas e topos de morro, dá autonomia para cada Estado legislar sobre meio ambiente, permite que os municípios passem a autorizar o desmatamento. É claramente um pedido de penico aos ruralistas, não está preocupado com os interesses nacionais, mas com interesses particulares de quem quer o lucro imediato.
TQPT – Se for aprovado, o projeto do Aldo prejudica todo mundo, até mesmo os descendentes dos ruralistas.
C – É o que estou dizendo há alguns milênios. Lembra o que aconteceu em Santa Catarina? Lá, o Governo reduziu as margens de mata ciliar ao longo dos rios e todo mundo viu a tragédia ocasionada pelas últimas chuvas. Se o projeto for aprovado, vai provocar impactos ambientais irreversíveis e a emissão de 25 bilhões a 31 bilhões de toneladas de gás carbônico só na Amazônia, segundo os especialistas. É preciso protestar. No Rio de Janeiro, nessa semana, já houve uma primeira manifestação de rua, com a participação de duzentos ativistas e lideranças de organizações ambientalistas. Nos outros países existem também curupiras. Eles vão boicotar o produto brasileiro em decorrência do desmatamento que o Código vai permitir.
TQPT – Excelência, me diga, o Aldo não é deputado do PCdoB, um partido que sempre defendeu, em tese, os fracos, a floresta...
C - (dando um assovio agudo e assustador) - Meu filho, o relatório do Aldo é uma afronta à sociedade e ao patrimônio ambiental do Brasil. Com isso, Aldo fere a respeitabilidade da bancada de um partido histórico nas lutas populares. Vai tirar votos de mulheres maravilhosas do PCdoB: Vanessa Graziottin (AM), Perpétua (AC), Jandira Feghalli (RJ), Alice Portugal (BA), Jô Moraes (MG), Manuela (RS). Aldo está se comportando como um agente infiltrado da bancada ruralista no PCdoB. Ele já passou para o outro lado, falta apenas formalizar sua filiação ao DEM (vixe, vixe!), onde é o lugar das idéias interesseiras que ele defende. Aldo Rebelo é o anti-curupira, o carrasco da floresta.
(José Ribamar Bessa Freire, no Taqui Pra Ti)
Negritude
Cien años de soledad será traducida a lengua indígena wayuunaiki
05 de Junio, 2010 - AFP
El proyecto fue concebido como un mecanismo de difusión de la cultura y reforzamiento de la integración entre los indígenas de la comunidad wayúu
La obra cumbre del escritor Gabriel García Márquez, Cien años de soledad, será traducida a la lengua wayuunaiki, hablada por los indígenas que habitan en una zona limítrofe entre Colombia y Venezuela, dijo el sábado el experto Félix Carrillo, uno de los impulsores del proyecto.
El colombiano García Márquez, ganador del premio Nobel de Literatura en 1982, "ya dio su consentimiento" para que la novela sea traducida en breve al wayuunaiki, señaló Carrillo a radioemisoras.
Añadió que el proyecto fue concebido como un mecanismo de difusión de la cultura y reforzamiento de la integración entre los indígenas de la comunidad wayúu, que viven en el departamento (provincia) colombiano de La Guajira (norte, costa Caribe) y el estado venezolano de Zulia.
Traductores, estudiosos de la lengua y otros expertos de La Guajira, Zulia y la comunidad wayúu participarán en el proyecto, avalado por el ministerio de Cultura de Colombia, según Carrillo.
Además del texto en wayuunaiki, los indígenas podrán contar con un producto audiovisual de la novela de García Márquez, se informó.
Cien años de soledad (1967), que narra la historia de la familia Buendía a través de varias generaciones en el pueblo ficticio de Macondo y menciona episodios del mundo indígena del Caribe, ha sido traducida a más 35 lenguas.
Link: http://www.el-nacional.com/www/site/p_contenido.php?q=nodo/140449/Entretenimiento/Cien-a%C3%B1os-de-soledad-ser%C3%A1-traducida-a-lengua-ind%C3%ADgena-wayuunaiki
O vampiro brasileiro ataca novamente
J. Serra, o vampiro brasileiro, não se cansa de nos surpreender. Mirou na Bolívia e acertou o próprio pé (pra ver os 4 tiros, no Estado de SP: 1, 2, 3, 4).Dá medo ouvir o Serra, ou ler os "jornalistas" que o apóiam. Parece que a oposição psdbista enlouqueceu. Sobre a atuação do vampiro, concordamos com o Luis Nassif:
"Serra dá o tiro na Bolívia. Aí a Veja aparece com a matéria prontinha, mostrando o perigo boliviano. Daqui a pouco vão ressuscitar os 200 mil guerrilheiros das FARCs que invadirão o Brasil pelo mar. (...)
Onde esse pessoal está com a cabeça? Criaram um mundo circular em que meia dúzia de neocons falam para eles próprios sem se dar conta do entorno. É um autismo assustador. Montam toda uma encenação, articulam aqui e ali, Serra solta o rompante, a Veja repica a matéria (...).
E a Internet inteira olhando aquele bailado louco e se indagando: o que deu neles? Montam toda uma encenação, supondo-a esperta, para um tema que só encontra ressonância em eleitores de ultradireita e nos órfãos de Sierra Maestra.
Em relação ao Mercosul, Serra repete os mesmos discursos dos anos 90, quando questionou o acordo automotivo com a Argentina. Em relação à Bolívia, retrocede ao período da Guerra Fria. Não conseguiu avançar uma análise minimamente diferenciada. É como se tivesse hibernado por 15 anos das discussões nacionais e acordado de repente.
E tudo para garantir o factóide da próxima semana, a próxima chamada de capa de Veja.
O resultado de tudo isso é o suicídio político de Serra. Terminada a aventura das eleições, haverá uma reconstrução da oposição. E, hoje em dia, sobram dúvidas sobre a viabilidade do PSDB de continuar comandando as oposições. As loucuras desse estilo neocon desvairado, a truculência nos ataques a adversários e a aliados, o uso de jornalistas cúmplices para atacar colegas, não apenas comprometeram a eleição de Serra, mas a própria viabilidade do PSDB como líder da nova oposição."
Nasceu no meu jardim mais um pé de manacá.
A querela das terras de quilombos, por Manuela Carneiro da Cunha
Como, entre essas terras subtraídas a “quem quer produzir”, são também contabilizadas as cidades, conclui-se que esses promotores desejam transformar o Brasil numa grande fazenda. Voltaríamos às capitanias hereditárias?
Mas olhemos mais de perto. Analisando as áreas de conservação ambiental e as áreas indígenas, o Ipea, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, publicou, em dezembro de 2009, um estudo cujo título já diz tudo: chama-se “Unidades de Conservação e o Falso Dilema entre Conservação e Desenvolvimento”.
E, para quem acha que há áreas de conservação demais no Brasil, lembra que percentualmente à nossa parte do bioma floresta amazônica, estamos bem atrás de Venezuela, Colômbia, Equador e Bolívia.
Segundo a análise que o IBGE faz do último Censo Agropecuário, a concentração de terras pouco se alterou entre 1985 e 2006: a pequena propriedade rural, menor do que 10 hectares, que representa quase metade do número de propriedades, ocupa 2,7% da área total de estabelecimentos rurais.
No outro extremo, a grande propriedade, aquela acima de mil hectares, ocupa 43%. Se esta é mais rentável no absoluto, a pequena propriedade é mais racional no uso da terra e proporciona uma melhor distribuição de renda.
Não só também “produz”, mas sabe-se que ela é quem garante a segurança alimentar no Brasil.
Mas vejamos como se distribui, quanto a terras, o agronegócio.
O professor Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura da USP, de Piracicaba, desenvolveu pesquisas com colaboradores brasileiros e suecos, que serviram para que a associação brasileira da indústria da cana-de-açúcar defendesse, diante da União Europeia, a compatibilidade da expansão do cultivo da cana com os compromissos ambientais do país.
Em um artigo publicado em 2007, Sparovek e seus colaboradores relembram que quem se apropria da maior parte das terras cultiváveis brasileiras é a pecuária.
Um estudo de 2003, de Cardille e Foley, mostrou que, entre 1980 e 1995, dos 25 milhões de hectares deflorestados, 54% tinham sido convertidos em pastos, e só 7% serviam para cultivo. Em 1995, a pecuária ocupava 73% do espaço agrícola.
A criação de gado bovino, essa grande responsável pelo desmatamento na Amazônia, continua sendo feita de maneira extensiva, com uma densidade inferior a um boi por hectare!
Segundo o IBGE, o gado confinado ou semiconfinado não passava de 2,5% do total de gado em 2005.
O subsídio implícito da grilagem de milhões de hectares na Amazônia torna mais rentável, como mostrou o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a criação extensiva do que o confinamento ou semiconfinamento. Mas rentável não equivale a racional.
Quem está limitando o acesso às terras a “quem quer produzir” não são, portanto, os índios, os quilombolas, as unidades de conservação e a pequena propriedade rural, e sim a parte tecnologicamente mais atrasada e predatória da pecuária.
O resto é conversa para boi dormir, ou melhor, para influenciar o Supremo.
(Manuela Carneiro da Cunha, na FSP, Tendências e debates, 26/05/10)
Extrayendo Vida
La extracción de recursos naturales en Latinoamérica es una actividad en auge y foco de numerosos conflictos. Ante el poder económico de las transnacionales y la complicidad de los gobiernos locales, la población campesina y los pueblos indígenas son quienes más sufren las consecuencias de las empresas mineras, petroleras, madereras, hidroeléctricas. Guatemala y Ecuador son dos de los países afectados por esta situación. Pero a su vez, son foco de resistencia cada vez más organizada y fuertemente encabezada por los pueblos indígenas frente la explotación a gran escala de los recursos naturales.
Link: http://www.albasud.org/video.php?id=13
Entrevistas do FHC e do Lula
São duas entrevistas feitas há mais tempo, pelo mesmo repórter e no mesmo programa da BBC. O papel do repórter é ser algo entre mala e desrespeitoso, pra ver como o entrevistado reage (é um programa behaviorista).
Entrevista do FHC:
http://www.youtube.com/watch?v=HDN2yVEqYnk
http://www.youtube.com/watch?v=wmjXqQ_rwiM
Entrevista do Lula:
http://www.youtube.com/watch?v=wIDQK6ez_XA
http://www.youtube.com/watch?v=9ENz9yyL9BA
http://www.youtube.com/watch?v=-9jTW5G3ic8
(acho que o serra teria um infarto numa entrevista dessas...)
THE REAL THING
Da pesada: DIZZY GILLESPIE - THE REAL THING - 1970
Pra baixar: http://sharebee.com/07484be9
"A ciência não é um deus que sabe tudo"
"O líder ianomâmi Davi Kopenawa disse estar "muito contente" com a notícia de que as mais de 2.000 amostras de sangue de seu povo, que desde 1967 repousam em centros de pesquisa dos Estados Unidos, serão devolvidas à tribo. Conforme a Folha adiantou no último domingo, há um acordo sendo finalizado entre cinco universidades e o governo brasileiro para a devolução, que ainda não tem data.
Da Alemanha, onde está para assistir a uma ópera que tem seu povo como protagonista, o líder indígena respondeu por e-mail, por intermédio do antropólogo Bruce Albert, a perguntas feitas pela reportagem. (CA)
FOLHA - Como o sr. recebeu a notícia de que as universidades aceitaram devolver o sangue?
DAVI KOPENAWA YANOMAMI - Foi uma luta de dez anos. Agora, fiquei muito contente que os brancos acabaram entendendo a importância desse retorno.
FOLHA - O sangue foi coletado nos anos 1960, mas só nesta última década os ianomâmis começaram a se esforçar para tê-lo de volta. Por quê?
KOPENAWA - O sangue foi tirado do nosso povo quando eu era menino. Os cientistas não explicaram nada direito. Só deram presentes, panelas, facas, anzóis e falaram que era para coisa de saúde. Depois todo mundo esqueceu. Ninguém pensou que o sangue seria guardado nas geladeiras deles, como se fosse comida! Só em 2000 que eu soube que esse sangue estava ainda guardado e sendo usado para pesquisa. Aí me lembrei da minha infância, e os velhos também se lembraram de que nosso sangue foi tirado. Todo mundo ficou muito triste de saber que esse sangue nosso e de nossos parentes mortos ainda estava guardado.
FOLHA - Napoleon Chagnon e James Neel agiram errado com vocês?
KOPENAWA - Eu acho que estavam muito errados, porque eles pensaram que os ianomâmis podem ser tratados como crianças e não têm pensamento próprio. Não dá para fazer pesquisa com povos indígenas sem explicação. Pesquisa que interessa à gente é para melhorar nossa saúde. Não dá para pesquisar e deixar a gente depois morrer de doenças. Um tempo depois que esses cientistas foram embora, em 1967, morreu quase todo o meu povo do Toototobi de sarampo.
FOLHA - Por que o sangue será jogado no rio quando ele voltar?
KOPENAWA - Vamos entregar esse sangue do povo ianomâmi ao rio porque o nosso criador, Omama, pescou sua mulher, nossa mãe, no rio no primeiro tempo. Mas não gosto da palavra "jogar", não vamos jogar o sangue dos nossos antigos; vamos devolver para as águas.
KOPENAWA - A ciência não é um deus que sabe tudo para todos os povos. Se querem pesquisar o sangue do povo deles, eles podem. Quem decide se pesquisas são boas para nosso povo somos nós, ianomâmis."
(FSP, caderno Ciência, 12/05/2010)
¿Qué coño de capitalismo era ese?
Tá certo que tá no El País, mas "construir o capetalismo pra depois fazer o socialismo"? Será que o Lula acredita mesmo nisso? (Longe de nós criticar o Lula em época de eleição). Mas a frase é interessante - e assustadora - , porque parece sintetizar a desculpa do PT-em-campanha-da-Dilma pra o seu desvio de centro-direita... (tipo a frase da Dilma: "quando o Brasil mudou, eu mudei, mas nunca mudei de lado").
ps: E o inacreditável Vampiro Brasileiro disse na Folha do dia 01/07/2010 que "nós temos que estatizar o Estado brasileiro. Nós temos que estatizar as agências reguladoras. Elas foram apropriadas por setores privados, partidos políticos, sindicatos." (em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/760259-tem-que-ser-uma-coisa-discreta-diz-serra-a-vice-sobre-amantes.shtml).
Ahãm... tá bom...
Dossiê do NAPP sobre a campanha da Veja contra os direitos territoriais
http://sites.google.com/site/nappufrrj/dossies/revista-veja
Acelerador de gente

A o visitar o LHC (Grande Colisor de Hádrons) em abril de 2008, o físico escocês Peter Higgs pôde contrastar sua dimensão humana com a escala gigantesca da maior máquina já construída pela humanidade.
Se a hipótese de Higgs estiver correta, os dados que começaram a jorrar nas últimas semanas do LHC fornecerão a última peça no quebra-cabeças do modelo padrão, a teoria da física que explica a matéria. Mas a saga do LHC é resultado do trabalho de gerações de pesquisadores, cujos nomes finalmente se diluirão na "simbiose homem-máquina" de um novo paradigma, pela primeira vez realmente global, de cooperação cientifica.
Para Karin Knorr Cetina, professora de sociologia do conhecimento da Universidade de Konstanz, Alemanha, o experimento é, antes de tudo, um "laboratório humano" numa escala sem precedentes na história da ciência moderna.
Cetina passou 30 anos observando os pesquisadores do Cern (Centro Europeu de Física Nuclear), laboratório na Suíça que abriga o LHC, numa espécie de estudo "etnológico" da tribo dos físicos, seus usos e costumes. Segundo ela, noções tradicionais na ciência, como carreira, prestigio e autoria, deixam de ter qualquer significado no modelo de produção de conhecimento do Cern.
Da Universidade de Chicago, EUA, onde é pesquisadora visitante, Cetina falou à Folha:
FOLHA - O que há de novo na forma de produzir conhecimento no Cern, e como isso se compara com as humanidades?
KARIN KNORR CETINA - O novo é a dimensão, a duração e o caráter global do experimento. A estrutura dos experimentos é um experimento em si mesmo, com um caráter antecipatório de um tempo global e de uma sociedade do conhecimento.
Poderíamos, talvez, fazer uma comparação com aquele espírito arrojado e inovador no desenvolvimento do supersônico Concorde nos anos 1960, que sinalizou uma ruptura de época. Mas não se pode responder com uma simples frase ao "como" esse experimento é coordenado.
Há muitos mecanismos particulares que sustentam o projeto e o transformam numa espécie de "superorganismo", na íntima colaboração de mais de 2.000 físicos com o gigantesco LHC, que eles mesmo projetaram e no qual, finalmente, trabalham juntos.
Um mecanismo muito importante são as publicações coletivas em ordem alfabética. Quem é privilegiado não é o "gênio", o autor, ou pesquisadores destacados em suas áreas. Um outro mecanismo é que o experimento mesmo, e não os autores, é "convidado" para as conferências internacionais.
Os atores individuais são apenas os representantes daquilo que produziram em conjunto. Um outro mecanismo é que os participantes se encontram, por exemplo, durante toda uma semana no Cern, e esses encontros são organizados de tal maneira que todos possam e devam ser informados sobre tudo que ocorre. Estabelece-se, assim, uma espécie de consciência coletiva do "conhecimento compartilhado".
Como poderíamos comparar isso com as ciências humanas? Alguns diagnósticos de época importantes, de historiadores e filósofos, por exemplo, ainda encontram ressonância na opinião pública, mas, infelizmente, a estrutura e a segmentação da pesquisa nesse campo do conhecimento não tem mais nada de interessante a oferecer. A sociologia tradicional não sinaliza mais para a frente.
FOLHA - Depois de muitos anos de pesquisa de campo em laboratórios como uma etnógrafa da ciência, como se diferenciam as culturas científicas diante do papel do indivíduo?
CETINA - A biologia molecular, que acompanhei por muitos anos, é uma ciência "de bancada", na qual, por regra, poucos pesquisadores trabalham juntos, na qual também se produz e publica em coletivo, mas não em ordem alfabética. O papel do pesquisador individual ainda permanece importante.
Isso leva, como sabemos, a conflitos em torno de autoria e quem está em que posição na publicação. A física de altas energias procura, em contrapartida, liberar a cooperação, na qual é o conjunto que está no ponto central. O fio condutor não é mais a carreira, mas o resultado cientifico. O acelerador é o elemento dominante, pois ele somente pode ser construído e avaliado por muitos.
FOLHA - Seria a natureza mesma do projeto incompatível com um novo "insight" individual que poderia mudar tudo de forma imprevisível?
CETINA - É bem mais provável, no caso do Cern, que a pesquisa em equipe deva produzir excelentes resultados empíricos. Muitos pesquisadores em sociologia e nas humanidades, de maneira geral, produzem resultados parciais, fragmentados, que não se agregam dentro de um sistema numa perspectiva cumulativa -não porque a natureza do social seja fragmentada, mas porque nossa maneira de conduzir pesquisas, nossas convenções de pesquisa, não se agregam.
Em muitas ciências empíricas devemos investigar no processo cooperativo -já que na natureza todas as partes de uma sistema se interrelacionam- ou todo o sistema ou saber qual é, realmente, a parte central desse sistema que deve ser isolada e destacada. Esse reducionismo experimental não pode ser levado a cabo na ciência social por motivos éticos, por se tratar de pessoas em sua integridade, que não podemos reduzir a células de cultura. Para tanto, seria necessário muito mais cooperação e pesquisa.
(Na Folha de São Paulo do dia 02/05/2010, Caderno Ciência)
"Uma cena de encantamento mágico"

"Estávamos em dia de lua cheia. Urse subia no horizonte na mesma hora em que Wari, o sol, desaparecia no ocidente. Havia sido preparado também fumo torrado reduzido a pó misturado com cinza. Quando a lua apareceu a cerimônia começou. É uma cerimônia que se desenrola sem cerimônias, se podemos nos expressar assim para dizer que tudo aconteceu simplesmente. Os assistentes formavam um meio círculo em volta da bebida sagrada e do pequeno pote de fumo. Armado de um longo pecíolo oco de folha de mamoeiro, que parece um tubo rígido de borracha, o índio que fazia o papel de servente derramava um pouco de fumo na cavidade da mão, introduzindo uma pequena dose na extremidade do tubo, que os pacientes pegavam e levavam até uma de suas narinas. O servente soprava com força e o pó de fumo penetrava no nariz. Baixando então o tubo da sua narina para sua boca, o paciente soprava na boca do servente, assobiando de maneira muito especial, seguindo as instruções da Grande Serpente. O servente fazia uma leve careta e o paciente parecia sofrer atrozmente, mas o tratamento recomeçava três vezes, de maneira a introduzir duas doses em cada narina. Parece que é um excelente remédio contra a coriza.
Então Mame preenchia uma pequena cabaça de suco de honé e de kawa, soprava sobre ela, para que não fizesse nenhum mal ao paciente, e este o absorvia de uma vez, após o que ele devolvia a Mame o minúsculo vaso sagrado, fazendo uma careta horrorosa e soprando com barulho como que para se aliviar de um grande sofrimento.
Cada um dos celebrantes tomava tanto quanto podia, porque era necessário acabar com a bebida preparada, mas enquanto que um não pôde suportar mais do que quatro doses, e os outros, cinco, Mame engoliu sete, e foi o último a cair em estado de abobamento ou de embriaguez.
Neste momento, um grande silêncio reinou no acampamento. Os índios pareciam mergulhados num sono obsessivo. Eles não respondiam mais às perguntas que eu lhes fazia. Eram nove horas, a cerimônia já tinha durado cerca de três. O servente foi dormir, assim como todas as mulheres do acampamento, menos a mãe de uma criança doente, que Mame iria curar. Do mesmo modo que os Katukina, os Wani-nawa não dormem na choupana: eles passam a noite em abrigos especiais, impenetráveis pelo ar e pelos mosquitos. Estes abrigos estão distribuídos ao longo das bordas da floresta, a uma certa distância uns dos outros.
Havia um quarto de hora que durava o silêncio, só se escutava o coaxar das rãs, o canto dos grilos e a escala descendente do coruja parda uivadora, que tem o misterioso nome de "mãe da lua". O astro das noites, em todo o seu esplendor, iluminava do céu sem nuvens as cinco estátuas vivas, mas paralisadas, que se mantinham agachadas, com a cabeça entre as mãos. Andei em todos os sentidos dizendo o meu rosário.
Repentinamente, uma voz estranha aflautada se elevou, muito alta e melodiosa, o que me fez sobressaltar. Ela dizia frases ritmadas cujos versos terminavam em i.
Aproximei-me do grupo imóvel. Era Mame quem cantava; mas ele parecia estar em êxtase.
- "O que é que ele canta?" perguntei a um índio.
- "Não sei! disse ele, eu não sou feiticeiro!"
- "Então você não entende a sua própria língua?"
- "Não é na minha língua que ele canta!"
- "Que língua então?"
- "Não sei ! Além disso não é ele quem está cantando!"
- "Quem então?"
- "É a Grande Serpente que entrou nele!"
A Grande Serpente falava tão rápido, mas tão rápido, que era-me impossível escrever tudo, ainda mais que eu só tinha a lua para me iluminar. Escutei então, encantado, a voz harmoniosa daquele que enganou a nossa mãe Eva, nos pomares do Éden. Mame lhe emprestava a garganta, a língua, os lábios, mas evidentemente ele não estava aí para nada. A sua cabeça estava beatamente inclinada sobre o seu ombro esquerdo, os seus olhos estavam fechados, a sua alma estava no céu!"
(Tastevin, em 1924, entre o grupo de Mame, pajé Katukina - no livro: Tastevin, Parrissier, org. M. Carneiro da Cunha, editado pelo Museu do Índio, FUNAI RJ)
Nunca antes na história desse país se viu tanta gente na cadeia
Dados divulgados hoje na Folha de São Paulo (jornal indigesto, mas por vezes útil) mostram que a população carcerária do país dobrou nos últimos nove anos. Diz a Folha que o aumento é impulsionado pelo crescimento do número de presos provisórios, que aguardam julgamento. Segundo os números do Departamento Penitenciário Nacional, e do Conselho Nacional de Justiça, já são 473 mil detentos. São 167.046 pessoas a mais do que a população de Rio Branco, Acre. Ou, pros amigos do sudeste, é como se cerca de 20% da população de Belo Horizonte estivesse na cadeia. Quase metade desses presos estão no xilindró por atentado à propriedade privada alheia.É impressão nossa ou os brasileiros estão sentados sobre um barril de pólvora aceso?
ps:
"O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou em fevereiro um estudo estatístico sobre a situação carcerária no país. Não existe nada a comemorar. Os dados são vergonhosos, principalmente para os Estados.
Coletados em dezembro de 2009, informam que o Brasil possui 473.626 presos, sendo 264.500 condenados e 209.126 provisórios.
O estado com maior concentração de presos é São Paulo (163.915), seguido de Minas Gerais (46.447) e Paraná (37.440).
Já o estado com a maior taxa de encarceramento é o Acre (com 496 presos para cada 100 mil habitantes), seguido de Rondônia (465) e Mato Grosso do Sul (459).
O estudo indica ainda que a população carcerária do Acre é de 3.426, sendo 33% de presos provisórios.
A maioria dos presos do Acre é formada por jovens que se envolveram em crimes decorrentes do consumo ou tráfico de cocaína, um problema que permanece sendo ignorado pelas autoridades de Estado que faz fronteira com o Peru e a Bolívia.
A população carcerária da capital do Acre é formada por 2.794 detentos. A Unidade Penitenciária Francisco D´Oliveira Conde abriga 2.409; a Unidade Penitenciária Antonio Amaro Alves 120; e a Unidade Penitenciária-4 265, sendo 36 em sistema fechado e 229 em semiaberto."
(no Blog do Altino)
Tupac Amaru II
José Gabriel Condorcanki Noguera Tupac Amaru, filho do curaca Miguel Condorcanki e Rosa Noguera, descendia por linha materna de Juana Pilcowaco, filha do último inca Tupac Amaru, que fora executado pelo vice-rei Toledo na praça de Cusco 1572. Nasceu em 1740 ou em 1741, na província de Tinta, onde seu pai foi governador. Era o segundo filho, mas com a morte do primogênito Clemente, José Gabriel acabou herdando o cacicado paterno. José Gabriel estudou no Colégio de Caciques de São Francisco de Borja, em Cusco. Parece que, ao passar um tempo em Lima, José Gabriel frequentou também o curso de Artes da Universidade de São Marcos.Terminados seus estudos, foi nomeado cacique dos territórios antes controlados por seu pai, e fixou residência na cidade de Cusco, de onde viajava para controlar e governar as terras cuja administração lhe estava entregue. Casou-se em 1758 com uma jovem cusquenha, Micaela Bastidas Puyucahua, mulher de temperamento e personalidade forte, nada submissa e muito inteligente. Com ela teve três filhos homens.
Como herdeiro de uma família abastada e prestigiosa, José Gabriel era rico. Dentro de sua propriedade estavam campos imensos de coca, minas e terras férteis. Mas José Gabriel ganhava dinheiro mesmo com o transporte de cargas, pois ele contava com cerca de 350 mulas que viajavam de Cusco até o Alto Peru - Bolívia.
Sabe-se que o sistema colonial da época contava com uma rede de corregedores e caciques, que garantiam o seu funcionamento administrativo e disciplinar. Os corregedores eram autoridades espanholas, que vinham representar o rei de Espanha na província - deviam legislar sobre questões de justiça e questões civis, e tinham a função de arrecadar os tributos quatrimestrais que deviam depositar nos cofres reais. A partir do século XVIII, os corregedores obtiveram também a permissão para comercializar em suas respectivas províncias, "para o benefício e comodidade dos índios". Os caciques eram os antigos curacas do sistema incaico, recrutados agora pelo rei de Espanha para "azeitar" a dominação. Ajudavam na cobrança de tributos e a reunir índios para trabalhar nas mitas e nas minas. Para isso ganhavam um salário. Só os índios podiam ser caciques, não os espanhóis ou mestiços: trata-se de um cargo que se transmitia por hereditariedade. Os índios tinham vínculos de obrigação para com o seu respectivo cacique, e a lei só obrigava a pagar-lhes o trabalho no caso de trabalho que se dirigiam para fora, ou para o lucro da coroa. A solidez desse sistema repousava pois no antigo sistema indígena dos Andes peruanos. Esses caciques e seus decendentes com direito de sucessão eram educados em centros especiais, os Colégios de Caciques, em Lima e em Cusco.
Dada a natureza da economia colonial, é óbvio que existiam infinitos abusos de poder, e claro que havia uma super-exlporação dos índios, que constituiam a força de trabalho da época. Mas, curiosamente, ao contrário do que nós poderíamos pensar, parece que não havia, por parte dos índios, um necessario descontentamento com o sistema em si, mas apenas com os abusos mais exagerados que ocorriam.
Assim, José Gabriel Tupac Amaru não estava muito contente com os pesados impostos que devia pagar, e também estava preucupado com a pressão que sofria para abrir mão do monopólio dos transportes de minérios pelo Alto Peru - objeto de cobiça dos arrieiros argentinos. As autoridades espanholas passaram a obrigar Tupac Amaru a pagar mais impostos, e a recrutar seus índios para a mita nas minas, em favor da Coroa e sem receber bem por isso. Diante disso, Tupac Amaru apresentou um processo formal na Real Audiência de Lima, para liberar os índios do trabalho da mita. Como a decisão da audiência foi negativa, José Gabriel Tupac Amaru ficou meio ressentido com o sistema, e voltou pra casa bem insatisfeito.
Pois bem, essa insatisfação se dirigia a esta situação específica, e não ao sistema de dominação em si. Aos impostos excessivos, à mita obrigatória e ao abuso dos corregedores se somou ainda a repartição das terras de Tupac Amaru por razões administrativas, que na prática tirava da família Condorcanki bons pedaços de terra. Essa insatisfação crescente foi o estopim da maior insurreição na história do Virreinato peruano. Trata-se de uma insurreição que a princípio era apenas reformista: a rebelião reconhecia a autoridade da Coroa Espanhola, e apenas exigia mudanças na administração da colônia. A revolta começou com a prisão e a posterior execução de um corregedor abusado da província de Tinta, em 4 de novembro de 1780. É quando começa a rebelião que José Gabriel adota o nome de Tupac Amaru II, para usufruir do peso simbólico de sua ascendência inca.
Como toda rebelião, essa toma vida e segue caminhos próprios, e se distancia de seu propósito orginal: era uma revolta reformista, mas acaba ganhando uma conotação étnica, e ganha também um caráter mais insurrecional. A mulher de Tupac Amaru, Micaela Bastidas, vai exercer um importante papel como vice-liderança da insurreição, e, segundo o livro que digerimos antes de excretar essa postagem, foi por não seguir um conselho dela que Tupac Amaru acabou perdendo a guerra.
Depois de vencer uma batalha contra um grande exército espanhol em Sangarara, as forças da colônia estavam desbaratadas, e a população em Cusco estava em pânico. Mas alguns caciques que eram leais à Coroa reuniram forças e planejavam atacar o exército de Tupac Amaru. Tupac Amaru resolve então confrontá-los, com a esperança de ganhar a batalha e conseguir ainda mais armas e homens para atacar Cusco. Micaela se opunha a essa tática. Para ela, devia-se atacar Cusco de imediato, aproveitando o pânico da população e o caos instaurado para tomar o centro do poder colonial. Assim, de supetão e no susto, a maioria colonial em armas e chefes não se faria sentir tanto no campo de batalha, pelo peso psicológico que ainda ficara da batalha de Sangarara. Tupac Amaru, ao decidir contrapor-se à reação que se organizava pelo caciques do sul de Tinta primeiro, e atacar Cusco depois, deu tempo para a defesa colonial se organizar e receber mais reforços vindos de Lima, Arequipa e Huamanga.
Assim, em 8 de janeiro de 1781 Tupac perde uma batalha rumo a Cusco. Perde assim a iniciativa, e passa a ficar somente na defesa, cada vez mais acuado (que nem no xadrez). As tropas realistas perseguiram o exército tupacamarista, enfrentando-o em 5 e 6 de abril, em Tinta. Foi um massacre. Os principais dirigentes da rebelião foram presos. Em maio de 1981, Tupac Amaru II foi obrigado a presenciar a execução de toda a sua família. Ele então foi esquartejado e sua cabeça foi colocada na ponta de uma lança e exibida em Cusco e em Tinta, seus braços foram exibidos em Tungasuca e Carabaya, e suas pernas foram levadas para Levitaca e Santa Rosa.
(postagem baseada no livro La Rebelion de Tupac Amaru, de Daniel Valcarcel).
A origem do rio Juruá, o rio de mais meandros do mundo
Honorata tinha na ponta de sua linha um magnífico peixe-boi e se preparava para comê-lo quando subitamente viu a Cobra Grande do Purus aparecer. Abandonando imediatamente o seu rico butim, Honorata, mal dissimulando o seu descontentamento, perguntou à importuna quem ela era, e o que lhe valia a honra de uma visita, que ela tão pouco esperava. Cobra Grande lhe respondeu: 'sou a Cobra Grande do Purus, a mãe d'água, e, por isso, única rainha das águas deste território e que na sua insolência você finge desconhecer. Mas me apresentar a você não é o único objetivo da minha viagem. Ainda tenho que lhe perguntar, Honorata, com que direito você se estabeleceu nesta parte dos meus domínios, sem ao menos se dignar a pedir a minha autorização (...)'.Não foi com pouco esforço que Honorata escutou este longo e insolente discurso da Cobra Grande, porque, a cada palavra, Honorata se sentia ofendida, sentia nascerem nela todos os instintos belicosos e também ferver a mais terrível das iras. Assim, quando a Cobra Grande se calou, ela fez com que fossem escutados os seus assobios assustadores, como os que produziam as 135 sirenes dos 135 vapores da companhia do Lloyd, que apitavam ao mesmo tempo; uma imensa onda de espuma esverdeada, parecida com um rio fervendo, escapou de sua goela, e os seus olhos lançavam raios, como as tempestades mais famosas nenca chegaram a produzir. Todo o território tremia em fogo. No entanto, Honorata, tendo se recomposto um pouco, respondeu com estas palavras a Cobra Grande: 'quem quer que você seja, Cobra Grande do Purus, ou gênio das águas, não estou nem um pouco preucupada. Concedo-lhe não as qualidades necessárias, mas a liberdade de se gabar do título que lhe aprouver: agora, querer mandar na minha casa, vir me insultar e me provocar, eis o que eu não vou permitir nunca (...)'.
Honorata tendo assim falado, obteve a resposta de Cobra Grande, que consistiu numa gargalhada formidável, que fez tremer a floresta. (...) Assim, não podendo mais suportar estas insolentes provocações, Honorata se jogou sobre Cobra Grande. O choque foi assustador, Cobra Grande recebeu este primeiro e terrível choque razoavelmente bem, então Honorata enlaçou-a com suas dobras e redobras, pegou-a pela garganta, e, em menos tempo que é preciso para dizê-lo, levara Cobre Grande ao seu limite. Este combate foi curto, mas terrível e decisivo, um verdadeiro cataclisma. (...) O barulho infernal que faz o Chimborazo em erupção não é nada em comparação com o estrondo assustador que se ouviu então dos Andes ao Atlântico. Eram os gigantes da floresta que, agarrados pelos anéis dos dois combatentes, quebrados como frágeis galhos, caíam com um estrondo aniquilador e quebravam tudo na sua queda. A própria terra tem marcas que serão para os séculos futuros os testemunhos irrefutáveis desta luta terrível entre Honorata e Cobra Grande. A rainha do Purus, vendo-se a ponto de perder a vida, aproveitou um momento para se soltar do terrível abraço de Honorata e fugiu toda envergonhada para engolir a sua vergonha e verter a sua bílis no Purus, onde ela evitou falar do seu fracasso. Honorata, orgulhosa de sua força e bravura, vendo a Cobra Grande fugir, olhava à sua volta. Mas qual não foi o seu espanto ao constatar que o seu tranqüilo domínio, o lago Yainu, não existia mais, ele se transformara num imanso rio com sinuosidades de cobra. Era simplesmente o Juruá, que a própria Honorata acabara de cavar ao lutar, e o lago, rompendo os seus diques, tinha deixado correr as suas águas na trilha traçada pelo corpo da cobra. Desde essa época, diz a história, Honorata vive tranqüila à sombra dos seus louros, deitada no leito do Juruá, orgulhosa de ter vencido a maior, mais poderosa e também a mais pérfida cobra da Amazônia, feliz também de ter aberto para a navegação nacional uma nova via que traz riqueza e abundânica para a sua região natal. Honorata pode, de fato, viver orgulhosa e feliz no seu domínio do Juruá, e aceitar, sem cerimônia, o reconhecimento de todos os amazonenses, seus devedores".
(Jean-Baptiste Parrissier, "Seis meses no país da borracha, ou excursão apostólica ao rio Juruá", 1898 - no livro: Tastevin, Parrissier, org. M. Carneiro da Cunha, editado pelo Museu do Índio, FUNAI RJ)


