Entrevistas do FHC e do Lula
São duas entrevistas feitas há mais tempo, pelo mesmo repórter e no mesmo programa da BBC. O papel do repórter é ser algo entre mala e desrespeitoso, pra ver como o entrevistado reage (é um programa behaviorista).
Entrevista do FHC:
http://www.youtube.com/watch?v=HDN2yVEqYnk
http://www.youtube.com/watch?v=wmjXqQ_rwiM
Entrevista do Lula:
http://www.youtube.com/watch?v=wIDQK6ez_XA
http://www.youtube.com/watch?v=9ENz9yyL9BA
http://www.youtube.com/watch?v=-9jTW5G3ic8
(acho que o serra teria um infarto numa entrevista dessas...)
THE REAL THING
Da pesada: DIZZY GILLESPIE - THE REAL THING - 1970
Pra baixar: http://sharebee.com/07484be9
"A ciência não é um deus que sabe tudo"
"O líder ianomâmi Davi Kopenawa disse estar "muito contente" com a notícia de que as mais de 2.000 amostras de sangue de seu povo, que desde 1967 repousam em centros de pesquisa dos Estados Unidos, serão devolvidas à tribo. Conforme a Folha adiantou no último domingo, há um acordo sendo finalizado entre cinco universidades e o governo brasileiro para a devolução, que ainda não tem data.
Da Alemanha, onde está para assistir a uma ópera que tem seu povo como protagonista, o líder indígena respondeu por e-mail, por intermédio do antropólogo Bruce Albert, a perguntas feitas pela reportagem. (CA)
FOLHA - Como o sr. recebeu a notícia de que as universidades aceitaram devolver o sangue?
DAVI KOPENAWA YANOMAMI - Foi uma luta de dez anos. Agora, fiquei muito contente que os brancos acabaram entendendo a importância desse retorno.
FOLHA - O sangue foi coletado nos anos 1960, mas só nesta última década os ianomâmis começaram a se esforçar para tê-lo de volta. Por quê?
KOPENAWA - O sangue foi tirado do nosso povo quando eu era menino. Os cientistas não explicaram nada direito. Só deram presentes, panelas, facas, anzóis e falaram que era para coisa de saúde. Depois todo mundo esqueceu. Ninguém pensou que o sangue seria guardado nas geladeiras deles, como se fosse comida! Só em 2000 que eu soube que esse sangue estava ainda guardado e sendo usado para pesquisa. Aí me lembrei da minha infância, e os velhos também se lembraram de que nosso sangue foi tirado. Todo mundo ficou muito triste de saber que esse sangue nosso e de nossos parentes mortos ainda estava guardado.
FOLHA - Napoleon Chagnon e James Neel agiram errado com vocês?
KOPENAWA - Eu acho que estavam muito errados, porque eles pensaram que os ianomâmis podem ser tratados como crianças e não têm pensamento próprio. Não dá para fazer pesquisa com povos indígenas sem explicação. Pesquisa que interessa à gente é para melhorar nossa saúde. Não dá para pesquisar e deixar a gente depois morrer de doenças. Um tempo depois que esses cientistas foram embora, em 1967, morreu quase todo o meu povo do Toototobi de sarampo.
FOLHA - Por que o sangue será jogado no rio quando ele voltar?
KOPENAWA - Vamos entregar esse sangue do povo ianomâmi ao rio porque o nosso criador, Omama, pescou sua mulher, nossa mãe, no rio no primeiro tempo. Mas não gosto da palavra "jogar", não vamos jogar o sangue dos nossos antigos; vamos devolver para as águas.
KOPENAWA - A ciência não é um deus que sabe tudo para todos os povos. Se querem pesquisar o sangue do povo deles, eles podem. Quem decide se pesquisas são boas para nosso povo somos nós, ianomâmis."
(FSP, caderno Ciência, 12/05/2010)
¿Qué coño de capitalismo era ese?
Tá certo que tá no El País, mas "construir o capetalismo pra depois fazer o socialismo"? Será que o Lula acredita mesmo nisso? (Longe de nós criticar o Lula em época de eleição). Mas a frase é interessante - e assustadora - , porque parece sintetizar a desculpa do PT-em-campanha-da-Dilma pra o seu desvio de centro-direita... (tipo a frase da Dilma: "quando o Brasil mudou, eu mudei, mas nunca mudei de lado").
ps: E o inacreditável Vampiro Brasileiro disse na Folha do dia 01/07/2010 que "nós temos que estatizar o Estado brasileiro. Nós temos que estatizar as agências reguladoras. Elas foram apropriadas por setores privados, partidos políticos, sindicatos." (em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/760259-tem-que-ser-uma-coisa-discreta-diz-serra-a-vice-sobre-amantes.shtml).
Ahãm... tá bom...
Dossiê do NAPP sobre a campanha da Veja contra os direitos territoriais
http://sites.google.com/site/nappufrrj/dossies/revista-veja
Acelerador de gente

A o visitar o LHC (Grande Colisor de Hádrons) em abril de 2008, o físico escocês Peter Higgs pôde contrastar sua dimensão humana com a escala gigantesca da maior máquina já construída pela humanidade.
Se a hipótese de Higgs estiver correta, os dados que começaram a jorrar nas últimas semanas do LHC fornecerão a última peça no quebra-cabeças do modelo padrão, a teoria da física que explica a matéria. Mas a saga do LHC é resultado do trabalho de gerações de pesquisadores, cujos nomes finalmente se diluirão na "simbiose homem-máquina" de um novo paradigma, pela primeira vez realmente global, de cooperação cientifica.
Para Karin Knorr Cetina, professora de sociologia do conhecimento da Universidade de Konstanz, Alemanha, o experimento é, antes de tudo, um "laboratório humano" numa escala sem precedentes na história da ciência moderna.
Cetina passou 30 anos observando os pesquisadores do Cern (Centro Europeu de Física Nuclear), laboratório na Suíça que abriga o LHC, numa espécie de estudo "etnológico" da tribo dos físicos, seus usos e costumes. Segundo ela, noções tradicionais na ciência, como carreira, prestigio e autoria, deixam de ter qualquer significado no modelo de produção de conhecimento do Cern.
Da Universidade de Chicago, EUA, onde é pesquisadora visitante, Cetina falou à Folha:
FOLHA - O que há de novo na forma de produzir conhecimento no Cern, e como isso se compara com as humanidades?
KARIN KNORR CETINA - O novo é a dimensão, a duração e o caráter global do experimento. A estrutura dos experimentos é um experimento em si mesmo, com um caráter antecipatório de um tempo global e de uma sociedade do conhecimento.
Poderíamos, talvez, fazer uma comparação com aquele espírito arrojado e inovador no desenvolvimento do supersônico Concorde nos anos 1960, que sinalizou uma ruptura de época. Mas não se pode responder com uma simples frase ao "como" esse experimento é coordenado.
Há muitos mecanismos particulares que sustentam o projeto e o transformam numa espécie de "superorganismo", na íntima colaboração de mais de 2.000 físicos com o gigantesco LHC, que eles mesmo projetaram e no qual, finalmente, trabalham juntos.
Um mecanismo muito importante são as publicações coletivas em ordem alfabética. Quem é privilegiado não é o "gênio", o autor, ou pesquisadores destacados em suas áreas. Um outro mecanismo é que o experimento mesmo, e não os autores, é "convidado" para as conferências internacionais.
Os atores individuais são apenas os representantes daquilo que produziram em conjunto. Um outro mecanismo é que os participantes se encontram, por exemplo, durante toda uma semana no Cern, e esses encontros são organizados de tal maneira que todos possam e devam ser informados sobre tudo que ocorre. Estabelece-se, assim, uma espécie de consciência coletiva do "conhecimento compartilhado".
Como poderíamos comparar isso com as ciências humanas? Alguns diagnósticos de época importantes, de historiadores e filósofos, por exemplo, ainda encontram ressonância na opinião pública, mas, infelizmente, a estrutura e a segmentação da pesquisa nesse campo do conhecimento não tem mais nada de interessante a oferecer. A sociologia tradicional não sinaliza mais para a frente.
FOLHA - Depois de muitos anos de pesquisa de campo em laboratórios como uma etnógrafa da ciência, como se diferenciam as culturas científicas diante do papel do indivíduo?
CETINA - A biologia molecular, que acompanhei por muitos anos, é uma ciência "de bancada", na qual, por regra, poucos pesquisadores trabalham juntos, na qual também se produz e publica em coletivo, mas não em ordem alfabética. O papel do pesquisador individual ainda permanece importante.
Isso leva, como sabemos, a conflitos em torno de autoria e quem está em que posição na publicação. A física de altas energias procura, em contrapartida, liberar a cooperação, na qual é o conjunto que está no ponto central. O fio condutor não é mais a carreira, mas o resultado cientifico. O acelerador é o elemento dominante, pois ele somente pode ser construído e avaliado por muitos.
FOLHA - Seria a natureza mesma do projeto incompatível com um novo "insight" individual que poderia mudar tudo de forma imprevisível?
CETINA - É bem mais provável, no caso do Cern, que a pesquisa em equipe deva produzir excelentes resultados empíricos. Muitos pesquisadores em sociologia e nas humanidades, de maneira geral, produzem resultados parciais, fragmentados, que não se agregam dentro de um sistema numa perspectiva cumulativa -não porque a natureza do social seja fragmentada, mas porque nossa maneira de conduzir pesquisas, nossas convenções de pesquisa, não se agregam.
Em muitas ciências empíricas devemos investigar no processo cooperativo -já que na natureza todas as partes de uma sistema se interrelacionam- ou todo o sistema ou saber qual é, realmente, a parte central desse sistema que deve ser isolada e destacada. Esse reducionismo experimental não pode ser levado a cabo na ciência social por motivos éticos, por se tratar de pessoas em sua integridade, que não podemos reduzir a células de cultura. Para tanto, seria necessário muito mais cooperação e pesquisa.
(Na Folha de São Paulo do dia 02/05/2010, Caderno Ciência)
"Uma cena de encantamento mágico"

"Estávamos em dia de lua cheia. Urse subia no horizonte na mesma hora em que Wari, o sol, desaparecia no ocidente. Havia sido preparado também fumo torrado reduzido a pó misturado com cinza. Quando a lua apareceu a cerimônia começou. É uma cerimônia que se desenrola sem cerimônias, se podemos nos expressar assim para dizer que tudo aconteceu simplesmente. Os assistentes formavam um meio círculo em volta da bebida sagrada e do pequeno pote de fumo. Armado de um longo pecíolo oco de folha de mamoeiro, que parece um tubo rígido de borracha, o índio que fazia o papel de servente derramava um pouco de fumo na cavidade da mão, introduzindo uma pequena dose na extremidade do tubo, que os pacientes pegavam e levavam até uma de suas narinas. O servente soprava com força e o pó de fumo penetrava no nariz. Baixando então o tubo da sua narina para sua boca, o paciente soprava na boca do servente, assobiando de maneira muito especial, seguindo as instruções da Grande Serpente. O servente fazia uma leve careta e o paciente parecia sofrer atrozmente, mas o tratamento recomeçava três vezes, de maneira a introduzir duas doses em cada narina. Parece que é um excelente remédio contra a coriza.
Então Mame preenchia uma pequena cabaça de suco de honé e de kawa, soprava sobre ela, para que não fizesse nenhum mal ao paciente, e este o absorvia de uma vez, após o que ele devolvia a Mame o minúsculo vaso sagrado, fazendo uma careta horrorosa e soprando com barulho como que para se aliviar de um grande sofrimento.
Cada um dos celebrantes tomava tanto quanto podia, porque era necessário acabar com a bebida preparada, mas enquanto que um não pôde suportar mais do que quatro doses, e os outros, cinco, Mame engoliu sete, e foi o último a cair em estado de abobamento ou de embriaguez.
Neste momento, um grande silêncio reinou no acampamento. Os índios pareciam mergulhados num sono obsessivo. Eles não respondiam mais às perguntas que eu lhes fazia. Eram nove horas, a cerimônia já tinha durado cerca de três. O servente foi dormir, assim como todas as mulheres do acampamento, menos a mãe de uma criança doente, que Mame iria curar. Do mesmo modo que os Katukina, os Wani-nawa não dormem na choupana: eles passam a noite em abrigos especiais, impenetráveis pelo ar e pelos mosquitos. Estes abrigos estão distribuídos ao longo das bordas da floresta, a uma certa distância uns dos outros.
Havia um quarto de hora que durava o silêncio, só se escutava o coaxar das rãs, o canto dos grilos e a escala descendente do coruja parda uivadora, que tem o misterioso nome de "mãe da lua". O astro das noites, em todo o seu esplendor, iluminava do céu sem nuvens as cinco estátuas vivas, mas paralisadas, que se mantinham agachadas, com a cabeça entre as mãos. Andei em todos os sentidos dizendo o meu rosário.
Repentinamente, uma voz estranha aflautada se elevou, muito alta e melodiosa, o que me fez sobressaltar. Ela dizia frases ritmadas cujos versos terminavam em i.
Aproximei-me do grupo imóvel. Era Mame quem cantava; mas ele parecia estar em êxtase.
- "O que é que ele canta?" perguntei a um índio.
- "Não sei! disse ele, eu não sou feiticeiro!"
- "Então você não entende a sua própria língua?"
- "Não é na minha língua que ele canta!"
- "Que língua então?"
- "Não sei ! Além disso não é ele quem está cantando!"
- "Quem então?"
- "É a Grande Serpente que entrou nele!"
A Grande Serpente falava tão rápido, mas tão rápido, que era-me impossível escrever tudo, ainda mais que eu só tinha a lua para me iluminar. Escutei então, encantado, a voz harmoniosa daquele que enganou a nossa mãe Eva, nos pomares do Éden. Mame lhe emprestava a garganta, a língua, os lábios, mas evidentemente ele não estava aí para nada. A sua cabeça estava beatamente inclinada sobre o seu ombro esquerdo, os seus olhos estavam fechados, a sua alma estava no céu!"
(Tastevin, em 1924, entre o grupo de Mame, pajé Katukina - no livro: Tastevin, Parrissier, org. M. Carneiro da Cunha, editado pelo Museu do Índio, FUNAI RJ)
Nunca antes na história desse país se viu tanta gente na cadeia
Dados divulgados hoje na Folha de São Paulo (jornal indigesto, mas por vezes útil) mostram que a população carcerária do país dobrou nos últimos nove anos. Diz a Folha que o aumento é impulsionado pelo crescimento do número de presos provisórios, que aguardam julgamento. Segundo os números do Departamento Penitenciário Nacional, e do Conselho Nacional de Justiça, já são 473 mil detentos. São 167.046 pessoas a mais do que a população de Rio Branco, Acre. Ou, pros amigos do sudeste, é como se cerca de 20% da população de Belo Horizonte estivesse na cadeia. Quase metade desses presos estão no xilindró por atentado à propriedade privada alheia.É impressão nossa ou os brasileiros estão sentados sobre um barril de pólvora aceso?
ps:
"O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou em fevereiro um estudo estatístico sobre a situação carcerária no país. Não existe nada a comemorar. Os dados são vergonhosos, principalmente para os Estados.
Coletados em dezembro de 2009, informam que o Brasil possui 473.626 presos, sendo 264.500 condenados e 209.126 provisórios.
O estado com maior concentração de presos é São Paulo (163.915), seguido de Minas Gerais (46.447) e Paraná (37.440).
Já o estado com a maior taxa de encarceramento é o Acre (com 496 presos para cada 100 mil habitantes), seguido de Rondônia (465) e Mato Grosso do Sul (459).
O estudo indica ainda que a população carcerária do Acre é de 3.426, sendo 33% de presos provisórios.
A maioria dos presos do Acre é formada por jovens que se envolveram em crimes decorrentes do consumo ou tráfico de cocaína, um problema que permanece sendo ignorado pelas autoridades de Estado que faz fronteira com o Peru e a Bolívia.
A população carcerária da capital do Acre é formada por 2.794 detentos. A Unidade Penitenciária Francisco D´Oliveira Conde abriga 2.409; a Unidade Penitenciária Antonio Amaro Alves 120; e a Unidade Penitenciária-4 265, sendo 36 em sistema fechado e 229 em semiaberto."
(no Blog do Altino)
Tupac Amaru II
José Gabriel Condorcanki Noguera Tupac Amaru, filho do curaca Miguel Condorcanki e Rosa Noguera, descendia por linha materna de Juana Pilcowaco, filha do último inca Tupac Amaru, que fora executado pelo vice-rei Toledo na praça de Cusco 1572. Nasceu em 1740 ou em 1741, na província de Tinta, onde seu pai foi governador. Era o segundo filho, mas com a morte do primogênito Clemente, José Gabriel acabou herdando o cacicado paterno. José Gabriel estudou no Colégio de Caciques de São Francisco de Borja, em Cusco. Parece que, ao passar um tempo em Lima, José Gabriel frequentou também o curso de Artes da Universidade de São Marcos.Terminados seus estudos, foi nomeado cacique dos territórios antes controlados por seu pai, e fixou residência na cidade de Cusco, de onde viajava para controlar e governar as terras cuja administração lhe estava entregue. Casou-se em 1758 com uma jovem cusquenha, Micaela Bastidas Puyucahua, mulher de temperamento e personalidade forte, nada submissa e muito inteligente. Com ela teve três filhos homens.
Como herdeiro de uma família abastada e prestigiosa, José Gabriel era rico. Dentro de sua propriedade estavam campos imensos de coca, minas e terras férteis. Mas José Gabriel ganhava dinheiro mesmo com o transporte de cargas, pois ele contava com cerca de 350 mulas que viajavam de Cusco até o Alto Peru - Bolívia.
Sabe-se que o sistema colonial da época contava com uma rede de corregedores e caciques, que garantiam o seu funcionamento administrativo e disciplinar. Os corregedores eram autoridades espanholas, que vinham representar o rei de Espanha na província - deviam legislar sobre questões de justiça e questões civis, e tinham a função de arrecadar os tributos quatrimestrais que deviam depositar nos cofres reais. A partir do século XVIII, os corregedores obtiveram também a permissão para comercializar em suas respectivas províncias, "para o benefício e comodidade dos índios". Os caciques eram os antigos curacas do sistema incaico, recrutados agora pelo rei de Espanha para "azeitar" a dominação. Ajudavam na cobrança de tributos e a reunir índios para trabalhar nas mitas e nas minas. Para isso ganhavam um salário. Só os índios podiam ser caciques, não os espanhóis ou mestiços: trata-se de um cargo que se transmitia por hereditariedade. Os índios tinham vínculos de obrigação para com o seu respectivo cacique, e a lei só obrigava a pagar-lhes o trabalho no caso de trabalho que se dirigiam para fora, ou para o lucro da coroa. A solidez desse sistema repousava pois no antigo sistema indígena dos Andes peruanos. Esses caciques e seus decendentes com direito de sucessão eram educados em centros especiais, os Colégios de Caciques, em Lima e em Cusco.
Dada a natureza da economia colonial, é óbvio que existiam infinitos abusos de poder, e claro que havia uma super-exlporação dos índios, que constituiam a força de trabalho da época. Mas, curiosamente, ao contrário do que nós poderíamos pensar, parece que não havia, por parte dos índios, um necessario descontentamento com o sistema em si, mas apenas com os abusos mais exagerados que ocorriam.
Assim, José Gabriel Tupac Amaru não estava muito contente com os pesados impostos que devia pagar, e também estava preucupado com a pressão que sofria para abrir mão do monopólio dos transportes de minérios pelo Alto Peru - objeto de cobiça dos arrieiros argentinos. As autoridades espanholas passaram a obrigar Tupac Amaru a pagar mais impostos, e a recrutar seus índios para a mita nas minas, em favor da Coroa e sem receber bem por isso. Diante disso, Tupac Amaru apresentou um processo formal na Real Audiência de Lima, para liberar os índios do trabalho da mita. Como a decisão da audiência foi negativa, José Gabriel Tupac Amaru ficou meio ressentido com o sistema, e voltou pra casa bem insatisfeito.
Pois bem, essa insatisfação se dirigia a esta situação específica, e não ao sistema de dominação em si. Aos impostos excessivos, à mita obrigatória e ao abuso dos corregedores se somou ainda a repartição das terras de Tupac Amaru por razões administrativas, que na prática tirava da família Condorcanki bons pedaços de terra. Essa insatisfação crescente foi o estopim da maior insurreição na história do Virreinato peruano. Trata-se de uma insurreição que a princípio era apenas reformista: a rebelião reconhecia a autoridade da Coroa Espanhola, e apenas exigia mudanças na administração da colônia. A revolta começou com a prisão e a posterior execução de um corregedor abusado da província de Tinta, em 4 de novembro de 1780. É quando começa a rebelião que José Gabriel adota o nome de Tupac Amaru II, para usufruir do peso simbólico de sua ascendência inca.
Como toda rebelião, essa toma vida e segue caminhos próprios, e se distancia de seu propósito orginal: era uma revolta reformista, mas acaba ganhando uma conotação étnica, e ganha também um caráter mais insurrecional. A mulher de Tupac Amaru, Micaela Bastidas, vai exercer um importante papel como vice-liderança da insurreição, e, segundo o livro que digerimos antes de excretar essa postagem, foi por não seguir um conselho dela que Tupac Amaru acabou perdendo a guerra.
Depois de vencer uma batalha contra um grande exército espanhol em Sangarara, as forças da colônia estavam desbaratadas, e a população em Cusco estava em pânico. Mas alguns caciques que eram leais à Coroa reuniram forças e planejavam atacar o exército de Tupac Amaru. Tupac Amaru resolve então confrontá-los, com a esperança de ganhar a batalha e conseguir ainda mais armas e homens para atacar Cusco. Micaela se opunha a essa tática. Para ela, devia-se atacar Cusco de imediato, aproveitando o pânico da população e o caos instaurado para tomar o centro do poder colonial. Assim, de supetão e no susto, a maioria colonial em armas e chefes não se faria sentir tanto no campo de batalha, pelo peso psicológico que ainda ficara da batalha de Sangarara. Tupac Amaru, ao decidir contrapor-se à reação que se organizava pelo caciques do sul de Tinta primeiro, e atacar Cusco depois, deu tempo para a defesa colonial se organizar e receber mais reforços vindos de Lima, Arequipa e Huamanga.
Assim, em 8 de janeiro de 1781 Tupac perde uma batalha rumo a Cusco. Perde assim a iniciativa, e passa a ficar somente na defesa, cada vez mais acuado (que nem no xadrez). As tropas realistas perseguiram o exército tupacamarista, enfrentando-o em 5 e 6 de abril, em Tinta. Foi um massacre. Os principais dirigentes da rebelião foram presos. Em maio de 1981, Tupac Amaru II foi obrigado a presenciar a execução de toda a sua família. Ele então foi esquartejado e sua cabeça foi colocada na ponta de uma lança e exibida em Cusco e em Tinta, seus braços foram exibidos em Tungasuca e Carabaya, e suas pernas foram levadas para Levitaca e Santa Rosa.
(postagem baseada no livro La Rebelion de Tupac Amaru, de Daniel Valcarcel).
A origem do rio Juruá, o rio de mais meandros do mundo
Honorata tinha na ponta de sua linha um magnífico peixe-boi e se preparava para comê-lo quando subitamente viu a Cobra Grande do Purus aparecer. Abandonando imediatamente o seu rico butim, Honorata, mal dissimulando o seu descontentamento, perguntou à importuna quem ela era, e o que lhe valia a honra de uma visita, que ela tão pouco esperava. Cobra Grande lhe respondeu: 'sou a Cobra Grande do Purus, a mãe d'água, e, por isso, única rainha das águas deste território e que na sua insolência você finge desconhecer. Mas me apresentar a você não é o único objetivo da minha viagem. Ainda tenho que lhe perguntar, Honorata, com que direito você se estabeleceu nesta parte dos meus domínios, sem ao menos se dignar a pedir a minha autorização (...)'.Não foi com pouco esforço que Honorata escutou este longo e insolente discurso da Cobra Grande, porque, a cada palavra, Honorata se sentia ofendida, sentia nascerem nela todos os instintos belicosos e também ferver a mais terrível das iras. Assim, quando a Cobra Grande se calou, ela fez com que fossem escutados os seus assobios assustadores, como os que produziam as 135 sirenes dos 135 vapores da companhia do Lloyd, que apitavam ao mesmo tempo; uma imensa onda de espuma esverdeada, parecida com um rio fervendo, escapou de sua goela, e os seus olhos lançavam raios, como as tempestades mais famosas nenca chegaram a produzir. Todo o território tremia em fogo. No entanto, Honorata, tendo se recomposto um pouco, respondeu com estas palavras a Cobra Grande: 'quem quer que você seja, Cobra Grande do Purus, ou gênio das águas, não estou nem um pouco preucupada. Concedo-lhe não as qualidades necessárias, mas a liberdade de se gabar do título que lhe aprouver: agora, querer mandar na minha casa, vir me insultar e me provocar, eis o que eu não vou permitir nunca (...)'.
Honorata tendo assim falado, obteve a resposta de Cobra Grande, que consistiu numa gargalhada formidável, que fez tremer a floresta. (...) Assim, não podendo mais suportar estas insolentes provocações, Honorata se jogou sobre Cobra Grande. O choque foi assustador, Cobra Grande recebeu este primeiro e terrível choque razoavelmente bem, então Honorata enlaçou-a com suas dobras e redobras, pegou-a pela garganta, e, em menos tempo que é preciso para dizê-lo, levara Cobre Grande ao seu limite. Este combate foi curto, mas terrível e decisivo, um verdadeiro cataclisma. (...) O barulho infernal que faz o Chimborazo em erupção não é nada em comparação com o estrondo assustador que se ouviu então dos Andes ao Atlântico. Eram os gigantes da floresta que, agarrados pelos anéis dos dois combatentes, quebrados como frágeis galhos, caíam com um estrondo aniquilador e quebravam tudo na sua queda. A própria terra tem marcas que serão para os séculos futuros os testemunhos irrefutáveis desta luta terrível entre Honorata e Cobra Grande. A rainha do Purus, vendo-se a ponto de perder a vida, aproveitou um momento para se soltar do terrível abraço de Honorata e fugiu toda envergonhada para engolir a sua vergonha e verter a sua bílis no Purus, onde ela evitou falar do seu fracasso. Honorata, orgulhosa de sua força e bravura, vendo a Cobra Grande fugir, olhava à sua volta. Mas qual não foi o seu espanto ao constatar que o seu tranqüilo domínio, o lago Yainu, não existia mais, ele se transformara num imanso rio com sinuosidades de cobra. Era simplesmente o Juruá, que a própria Honorata acabara de cavar ao lutar, e o lago, rompendo os seus diques, tinha deixado correr as suas águas na trilha traçada pelo corpo da cobra. Desde essa época, diz a história, Honorata vive tranqüila à sombra dos seus louros, deitada no leito do Juruá, orgulhosa de ter vencido a maior, mais poderosa e também a mais pérfida cobra da Amazônia, feliz também de ter aberto para a navegação nacional uma nova via que traz riqueza e abundânica para a sua região natal. Honorata pode, de fato, viver orgulhosa e feliz no seu domínio do Juruá, e aceitar, sem cerimônia, o reconhecimento de todos os amazonenses, seus devedores".
(Jean-Baptiste Parrissier, "Seis meses no país da borracha, ou excursão apostólica ao rio Juruá", 1898 - no livro: Tastevin, Parrissier, org. M. Carneiro da Cunha, editado pelo Museu do Índio, FUNAI RJ)
Marco civil da internet no Brasil
Todo usuário assíduo da internet deveria ao menos passar o olho no texto, pra ficar sabendo o que vem por aí... A discussão pode ser acompanhada no link: http://culturadigital.br/marcocivil/.
Tinha que ser o Chávez mesmo!
Hugo Chávez lançou mais um controverso programa em seu governo de esquerda: a guerrilha comunicacional. Trata-se de um programa piloto, que forma e apóia pequenos grupos de jovens alunos das escolas públicas para produzir conteúdos para veiculação em vídeo, rádio e impresso (são os "Comandos da Guerrilha Comunicacional"). A idéia é simples e efetiva: incentivar a meninada com talento pra produzir mídia com inspiração de esquerda, em contraposição à imprensa monopolista privada. O interessante no caso da Venezuela é o paradoxo: uma forma de arte pop, que faz um uso mercadológico e irônico da imagem, e que sempre foi contra o estado, sendo utilizada pelo estado esquerdista contra a iniciativa privada.Hoje é muito fácil produzir imagens e sons para circularem na internet e etc. Se continuamos reféns de um jornalismo de péssima categoria (vide a cobertura que a imprensa deu pro caso do Glauco, p.ex.), é só por preguiça de procurar fontes alternativas de notícias. Na verdade, existe uma imensa rede de jornalismo alternativo latino-americano, muito pouco conhecida por nós brasileiros. Aliás, creio que qualquer pessoa que viaja pela América do Sul hispanoparlante-quechuaparlante-aymaroparlante-guaraniparlante-etcparlante pode sentir o quanto nós brasileiros estamos excluídos de um movimento geral de integração dos povos filhos dessa nossa terra. Parece que no Brasil estamos mais interessados em assistir "Avatar" e nos emocionar com aquela pseudo-insurgência ecológica e burguesa do que olhar pro que está acontecendo nos países nossos vizinhos... Temos mais simpatia por aqueles bons-selvagens digitais do que pelos índios reais que estão bagunçando com o capitalismo na Bolívia.
(obs: aliás, no Avatar, quando o general careca-cabra-macho está dando uns toques no carinha de cadeira de rodas, ele alerta que ali a experiência de guerra seria muito pior do que na Venezuela... o próprio heróizinho do filme, o mesmo carinha de cadeira de rodas, também dá a entender que teria ficado aleijado na Venezuela...)
Aí do lado fica o Simon Bolívar com spray na mão (imagem tirada do blog http://guerrillacomunicacional.blogspot.com/).
Homens Trabalhando
No alto, a ilha de Chipre vista da estação espacial e o ônibus espacial Discovery; acima, astronauta Clayton Anderson, que ontem precisou usar um martelo para colocar um rebite que impedia instalação de um novo tanque de amônia no complexo (fonte: Folha de São Pulo, caderno Ciência, 12-04-2010).
- + - + - + - + -de--s+e+n+v+o+l+vimento
“Racionalização da produção, tecnologia, construção planejada – sim, se por detrás dessa construção ‘brilhar com verdadeiro amor terrestre o olho entreaberto do futuro’; não – se essa construção for o apego egoísta aos dias de hoje. Sob esta orientação, a grandiosa tecnologia transforma-se ‘no mais perfeito aparelho do provincianismo e da bisbilhotice em escala mundial’ (‘Minha descoberta da América’). É desse provincianismo planetário que, no ano de 1970,
Flora Brasiliensis
Ayahuasca é droga?
Ayahuasca é droga?
Três perguntas para Draulio de Araujo e Sidarta Ribeiro, co-autores de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) sobre efeitos do chá do Santo Daime no cérebro e na mente:
1. A ayahuasca pode e deve ser classificada como droga? Perigosa, talvez?
Draulio de Araujo - A Ayahuasca pode ser classificada como uma droga, sim, usando o entendimento de que ela contém substâncias químicas que alteram os mecanismos de neurotransmissão cerebral de forma direta. Baseado na mesma definição também podemos incluir nesse conjunto, o tabaco, o álcool, o café, e o chocolate. Como qualquer outra sub stância psicoativa, há algumas considerações importantes a serem feitas para balizar uma avaliação sobr e o risco associado ao seu uso. A primeira diz respeito ao seu poder de dependência química. No caso da Ayahuasca, que age sobre o sistema serotonérgico, não há comprovação científica sobre a eventual dependência química causada pelo seu uso. O segundo, as alterações sobre o sistema nervoso autonômico. No caso da Ayahuasca, há evidências que as mudanças de pressão arterial, frequência cardíaca, e respiratória, além da temperatura do corpo, permanecem dentro de limites considerados normais. Por outro lado, sabe-se que é importante evitar o uso da Ayahuasca nos casos em que o indivíduo esteja fazendo uso de medicamentos que alteram os níveis de serotonina, como é o caso de alguns anti-depressivos que estão baseados na inibição seletiva de recaptação de serotonina , por exemplo, o PROZAC.
Sidarta Ribeiro - Droga certamente, como o LSD, a maconha, o álcool e o café. Perigosa.... depende de muitas variáveis. Certamente é uma droga muito mais benigna para o organismo do que a heroína e a cocaína, pois não há overdose conhecida, nem adição pronunciada. Entretanto acredito que existam grupos de risco que não devam experimentar.
2. Foi sábia a decisão de permitir seu uso, legalmente?
Draulio - Creio que a decisão de permitir seu uso foi acertada, por três motivos. Primeiro, a Ayahuasca tem alguns efeitos interessantes que agora começam a ser desvendados pela ciência. De certa forma, essas pesquisas avançam a passos largos tendo em vista a legislação em vigor, e seus resultados tem demonstrado vários efeitos positivos. Por exemplo, estudos realizados na USP de Ribeirão Preto, coordenados pelo Prof. Jaime Cecílio Hallak, tem encontrado resultados bastante animadores quando a Ayahuasca é utilizada em pacientes com depressão que não respondem bem ao tratamento convencional. Ainda, outros estudos tem apontado em uma direção curiosa: a Ayahuasca parece ter um papel importante para livrar
do vício dependentes químicos em outras drogas, como o crack e o álcool. Estas, sim, com um prejuízo in dividual e social tremendo. Segundo, os riscos associados à Ayahuasca, que vem sendo testada há séculos, são baixos (há indícios que seu uso ocorra desde 2000 a.C). Por fim, ela já tem um papel importante na expressão cultural do povo Brasileiro.
Sidarta - Acho que sim. A Ayahuasca é essencial para algumas religiões, e seu uso no contexto religioso me parece muito benigno, como o peyote entre os Navajo. Tornar ilegal uma planta sagrada me parece absurdo.
3. Acredita que o assassinato do cartunista Glauco poderá de alguma forma alterar a percepção pública sobre a relativa inofensividade da ayahuasca?
Draulio - Alterar, sim. Para qual lado, não sei. Depende da maneira como esse caso evolua. Meu temor é que a falta de informação e o juízo preconcebido acabem por pautar as discussões.
Sidarta - Espero sinceramente que não, pois o caminho para o "problema das drogas" não é proibir, e sim regular. O assassinato do Glauco não pode ser debitado na conta da Ayahuasca, pois o assassino usava "n" coisas diferentes, e parece ter psicotizado ao longo do tempo. Acredito porém que os grupos de risco para Ayahuasca não estão bem definidos. Psicóticos bordeline, gestantes e crianças deveriam ser impedidos de tomar o chá, na minha opinião.






